O Pioneiro
Como um crente, o pioneiro professa uma espécie de religião que o coloca numa categoria.
Ele não é necessariamente aquele que chega primeiro, mas o que permanece acreditando e fazendo de tudo à sua volta “o sonho” a ser realizado. Está presente em todos os ramos da atividade humana; seja nas artes, ciência ou qualquer epopéia. Existem exemplos magníficos de pioneirismo ao longo da história e em qualquer lugar do planeta.
Portanto, ser pioneiro é antes de tudo um estado de espírito, uma psique de role especial.
A epopéia de Brasília propiciou a oportunidade para a observação de inúmeros desses seres com sangue nômade e paradoxalmente buscando assentamento, mas feito a seu modo, e pelas próprias mãos, para descanso da alma.
A utopia na ponta da vara puxando a carroça.
Em Brasília, é sempre bom lembrar, há uma confusão quanto a qualificação de pioneiro porque se atenta muito para a distinção entre pioneiro histórico, e os outros. Os quais nunca pararam de chegar.
Mas pioneiro é pioneiro. Histórico ou não, jovem ou velho, rico ou pobre. É, como disse uma característica como qualquer outra. Ele é altruísta, constrói para si e para os outros, não busca riquezas – como um bandeirante – mas quando encontra, divide. Não almeja o senhorio e sim a honra. Não reclama das agruras ao seu redor e traz sempre para si a responsabilidade. Como o nômade, a sua segurança está na disponibilidade e capacidade de fazer, antes que na conta bancária.
Enquanto pioneiro de Brasília, vi poucas e boas. Hoje cinqüenta e um anos depois me sinto como no primeiro dia: responsável pela parte que ajudei e ainda ajudo a construir, sem ter tido tempo para pensar em mim. Sim, porque o pioneiro se sente amparado pelos deuses e tem certeza de que nada nunca lhe faltará. Basta olhar nossos pioneiros históricos; são longevos e nenhum deles amealhou fortuna. Já flagrei alguns dizendo com orgulho serem “piotários”.
Ele não caça culpados. Resolve como pode as situações adversas. Em alguns casos seu DNA perpetua e passa de pai para filho a sua condição.
É como ser cigano às avessas.
Uma turma da qual pouco se fala é a das pioneiras sexuais. Em Brasília, na Cidade Livre, ao final da Avenida Central, havia a “ponta de rua” chamada Placa da Mercedes um misto de cortiço, velho oeste, favela, acampamento, sei lá, onde se misturavam esgoto a céu aberto com poeira, tiros com música, jogos, sopapos, cheiros e cores. Ao lado de cada “bar” tinha um corredor com pinguelas de tábuas sobre a lama das lavagens dos clientes.
Embora fosse super proibida a entrada de menores, num belo domingo, de dia e disfarçado consegui ser “atendido”. O quarto de tábuas não aparelhadas, mas cheirosas de tinta – nessa época, Brasília cheirava a tinta – tinha frestas no piso por onde escorria a água usada. No canto uma bacia esmaltada ao lado de um balde d’água. A cama, um catre de ripas com colchão de chita recheado de capim –- sei porque cheirava – e um forro cobertor que na época era chamado sapecanigrim.
Sentei na cama, tremulo e suarento, já tramando uma fórmula de sair dali ileso. Tinha ido longe demais...
Ela rapidamente tirou e pendurou a roupa no prego mais próximo. Deitou um litro d’água na bacia, agachou sobre ela e fez um chap–chap (que na minha percepção alterada era um som ensurdecedor de baleias se debatendo). Jogou a água no assoalho, que escorreu toda. E, ainda esfregando uma duvidosa toalhinha, avançou sobre mim. Completamente assustado, atordoado entre a hipótese de não ser macho e o horror de ter que enfrentar a situação, preferi me acovardar. Atirei o dinheiro combinado sobre a cama e saí correndo.
Minhas dúvidas só foram sanadas meses mais tarde quando a Zuzu – a mais linda cabeleireira da cidade – resolveu me iniciar nas lides de homem.
Nesse mesmo domingo à tarde, fruindo aquele mundo proibido, vi cenas inesquecíveis, como uma pequena algazarra em torno de um lambe-lambe que tirava fotos dos peões com as meninas. Elas cobravam caríssimo para posar mas os homens em fila esperavam pela vez e pagavam felizes.
Ao final do dia, numa briga, um soldado da GEB matou outro da aeronáutica. Chegou o pelotão de choque e corri das minhas primeiras cenas de guerra...
15 maio 2009
18 abril 2007
11 novembro 2006
O atalho
Quando o Brasil se interiorizou pela força do ouro, da ganância e do desdouro, uma coisa ficou clara. Era a de quem podia e quem não podia regressar. Parecia com um naufrágio. A idéia era ficar à tona. Enquanto náufragos, os interiorizados, sentiam saudade da metrópole. Essa sensação arquetipica passou geneticamente pelas gerações. Houve vergonhas, traições e temores. Horrores. Mas é genético. É da nossa programação cultura que, se for para naufragar, que seja em Copacabana. É como se o culpado voltasse à cena do crime. Assim é que todos os velhos brasileiros da atualidade gostariam de ser aposentados em Copacabana. Ah, Copacabana! Quantas mentiras, quantos crimes ecológicos, quanta ilusão! Chega a ser pornográfica a idéia de Copacabana nas mentes enfurnadas e enfumaçadas do interior brasileiro. Tergiversam, desconversam, tremem e se recompõem, mas no meio da bruma, lá está o farol genético e indelével de Copacabana a guiar náufragos cegos rumo ao sonho tosco, que nem sequer sabem sonhar, pois que ao naufrago não é dado ter lastro. Não é permitido pisar, pois não tem chão. Pela distancia estabelece-se a ignorância, daí o rompante e a prepotência. Até a morte é escamoteada na vã busca. Ai de nós, goianos excrescentes, quando não sabemos de nós, quando não reconhecemos o nosso chão, quando não valorizamos o nosso fundo de quintal.
Viva o atalho!
O atalho de que falo não é um “pulo do gato”. É uma estrada estreita e solitária que vai dar no panteão que todos temos no peito. É profunda solidariedade e humildade perante nós mesmos. Pois o desrespeito arrasa a auto estima e faz com que vivamos como zumbis desterrados a arrotar caviar na esteira dos acontecimentos já acontecidos em outros povos e lugares...
O atalho de que falo e que nos levará direto a nós mesmos, nos fará donos legítimos até das riquezas mais óbvias como Amazônia, biodiesel, culturas Ge, etc...
O atalho nos fará compreender a UDN, o Diogo Mainardi, e até a privatização de nossas praias antes que aconteça. O atalho não é estar entricheirado ao rés do chão armado de uma boa zarabatana!
É compreensão mesmo. É confiança ao invés de esperança, é assumir responsabilidades de foro intimo, é não ter sigilo a ser quebrado, é andar de pé no chão mas de cara e coração limpos.
É comer feijão e arrotar biodiesel, é transportar para dentro de si todos os deuses, degluti-los e vomitar amor, adubo do novo homem!
Você já notou que o templo de Angkor é a mãe da Sagrada Família e do Art decó? E que a Bauhaus e o dodecafônico vieram direto da China de Marco Pólo? E que a semana de 22 foi engendrada lá por volta de 1900 nas fronteiras da universidade de “Heil Del Berg”? Que Brasília é a utopia do século XIX?
Hora, gente. Ó Xente! Ainda vamos ser modernos?
De novo?
Não!
Moderno é o Vietnã atual...
Queiramos ser clássicos como os nossos índios! Só assim seremos importantes como serão os chineses e os hindus do futuro.
Rui
ps é melhor falar bobagens do que ser mudo.
é melhor ouvir bobagens do que ser surdo.
07 setembro 2006
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